Como é que culturas que se dizem iluminadas, democráticas e científicas chegam ao ponto de declarar plantas ilegais?
Nossa sociedade valoriza o estado alerta de consciência, bom para a resolução de problemas, e desvaloriza os demais estados de consciência. Qualquer outro tipo de consciência que não está relacionada com a produção ou consumo de bens materiais é estigmatizada. Aceitamos a embriaguez, o álcool, é claro. Permitimos que as pessoas tenham um breve descanso do sistema materialista.
Nos anos 60 houve um tremendo aumento nas experiências com substâncias psicodélicas. O grande efeito que se seguiu tinha a ver com o medo das pessoas no poder. Se um número suficiente de pessoas tivesse experimentado esses estados alterados de consciência, as estruturas da sociedade haveriam sido derrubadas. E então quem estivesse no poder não estaria mais no poder.
O problema foi talvez a falta de base. Não havia uma tradição, uma sabedoria secular xamânica, como nas tribos ayahuasqueiras da América do Sul.

Só por curiosidade, você já teve alguma experiência com DMT?
Eu acho importante sempre checar a validade dos “fatos” místicos que as pessoas afirmam como verdade.
Eu busquei rapidinho alguns artigos científicos (coisa boa) falando sobre o DMT e achei esse aqui:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2947205/?tool=pubmed
É meio complicado de entender, mas a moral da história (a grosso modo) é que o DMT é uma molécula empregada pelo nosso organismo para regular estímulos cerebrais.
A resposta de porquê o DMT está presente endogenamente na grande maioria dos organismos está no próprio vídeo. Ele é derivado do triptofano, uma molécula extremamente abundante. Faz todo sentido biológico pensar que o corpo emprega um derivado de uma molécula extremamente comum, fácil de fazer, para regulação de estímulos cerebrais. (Vou pedir meus 64 milhões de dolares….)
Supor que as moléculas pequenas são linguagens das plantas ou de outros planetas simplesmente não faz sentido. Especialmente, se você considera que “linguagem” envolve um processo lógico e cognitivo. A produção e transmissão de moléculas, por outro lado, é regulada por fatores físicos, químicos e biológicos.
A minha primeira questão interessante é: se o DMT realmente é tão bom e místico, por que ele é degradado tão rápido no corpo? Digo, se temos uma enzima para controlar a concentração de DMT e impedir que esta molécula esteja presente em altas quantidades, parece-me que bombar o DMT no cérebro não é algo bom ou natural…
Minha segunda pergunta interessante é: Como você prova que este estado alterado de consciência é, de fato, uma experiência mística, transcedental? Como estas duas coisas podem ser associadas?
O chá com as duas drugas, o DMT e o IMAO, é um alucinógeno assim como os outros. Não é um alucinógeno natural e não é uma resposta fisiológica normal. Assim como o álcool etílico (que também é presente na maioria dos organismos), um excesso de DMT pode causar efeitos fisiológicos. O que difere o DMT das outras drogas alucinógenas? Por que o DMT é místico e a salvinorina não?
Acho que o motivo pelo qual estes estados de consciência são estigmatizados pela sociedade surge do fato de que alucinações são tidas como danosas. Uma pessoa que alucina é considerada louca e não um profeta. A interpretação atual dos estados alterados de consciência é de que estes estados são uma loucura temporária, uma perda de controle da sua mente, algo não produtivo. Especialmente quando as substâncias envolvidas apresentam efeitos prejudiciais ao corpo.
O vídeo se estende por 15 minutos criando um misticismo em cima do DMT, mas não revela um motivo para este misticismo. A respota de 64 milhões de dolares seria, na verdade, por que raios uma alucinação induzida por um cactus seria uma experiência mística? O que leva as pessoas a crerem que as alucinações são trascendentais e não um mero fruto induzido de uma imaginação perturbada?
Eu realmente acredito que existem muitas perguntas sem resposta nesse aspecto, mas o tempo da fé cega já foi. Somos providos de razão, portanto devemos usá-la, certo?
Certíssimo. É por isso que não faz sentido proibir planta alguma. É como proibir uma espécie de peixe! O direito da experiência – psicodélica ou mística, tanto faz – deve ser algo tão natural quanto o sexo. Imagine alguém que morra sem experimentar o sexo. Que lástima! Da mesma forma como o sexo já foi controlado, hoje essa experiência com outros estados de consciência é controlada. Não deveria.
Sobre os efeitos prejudiciais que você citou, realmente não há como compará-los com os vastos e amplos danos causados pelas drogas legais álcool e cigarro. Para todos os fins, até onde eu saiba, não há efeitos prejudiciais. Claro que não é para todos. Um esquizofrênico não deve de forma alguma misturar sua medicação com o chá.
Em relação às visões. Parece-me que o ponto comum de relatos variados – de muita gente diferente – é a natureza externa das visões. Não parecem se tratar de alucinações, mas de outra coisa, entidades, se preferir. Não parece ser algo relacionado ao próprio ego ou inconsciente, como nos casos de LSD e outros. (Além do DMT, quem produz efeito semelhante é justamente a Salvia. A mescalina não parece ‘chegar tão longe’, embora extremamente poderosa.) Alguns relatos que particularmente chamam a atenção são de yogis que perceberiam sua energia kundalini subindo pela espinha, o que abriria os chakras – daí permitindo o contato com outras dimensões ou universos. O http://www.erowid.org tem coisas interessantes.
Mas de toda forma sofremos da síndrome do virgem falando sobre sexo. Não experimentei DMT, ainda. Está convidado!
PS: ele só é degradado rapidamente quando fumado seu cristal. O efeito da bebida dura horas.
O problema eh que vc quer analisar uma experiencia subjetiva, como se ela fosse objetiva… vc vai ficar ACHANDO coisas até passar pela experiencia ai vc poderá entender algo.
O motivo pelo qual eu fico “ACHANDO” coisas é porque eu só faço uma afirmação quando tenho um certo grau de certeza dos fatos. E pisando em um solo tão subjetivo, como você mesmo disse, é muito complicado afirmar algo com certeza. Mesmo que eu passe pela experiência, não sei se teria nenhum tipo de certeza de que transcendi, ou algo do gênero.
Não me entenda errado, eu concordo com você que essa experiência não deveria ser analisada como se fosse objetiva. Contudo, é exatamente isso que o vídeo tenta fazer. Se você perguntar a minha opinião, acho que a edição deste vídeo foi muito sacana. As frases ficaram completamente descontextualizadas e o fundo sonoro contribuiu ainda mais para o clima místico que o vídeo tenta passar.
Já que o vídeo tentou mesclar a experiência subjetiva dos usuários de DMT com a ciência, que é extremamente dependente de análises objetivas, nada mais justo do que rebater na mesma moeda: com uma análise científica e objetiva.
O que eu quero dizer é que ninguém pode fazer a seguinte afirmação: “Evidências científicas que o DMT é realmente místico estão por toda a parte.” – Afinal, a interpretação objetiva da experiência do DMT não chega a essa conclusão. E a interpretação subjetiva, somente, não é suficiente para o método científico atual.
Se seu problema é com o método científico atual e você acha que ele deveria levar em consideração a subjetividade da experiência, sugiro que você construa uma boa argumentação. Afinal, não é fácil derrubar um paradigma metodológico que foi estabelecido, amplamente difundido e aceito durante os últimos 400 anos.
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